SAMUEL RUTHERFOD - UM SERMÃO ANTES DA CEIA EM ANWOTH. Ano 1630.
- Samuel Rutherford

- 18 de jul.
- 26 min de leitura
Cântico dos Cânticos 2. Capítulo 14, 15, 16, 17. Versículos: “Ó minha pomba, que estás nas fendas da rocha, nos lugares secretos das escadas, deixa-me ver o teu rosto, deixa-me ouvir a tua voz; porque doce é a tua voz, e formoso o teu rosto”, etc.
No versículo 14 há:
1. Um título dado à Igreja.
2. Um pedido feito.
3. Uma dúvida respondida.
No versículo 15, uma nova dúvida é respondida e um pedido é feito. Ele a chama de sua Pomba, não se arrepende do que disse, mantém sua palavra, chama-a de sua Amada, sua Formosa, sua Imaculada. Agora Ele confirma, mantém firme: “Tu és de fato a minha Pomba.” Contudo, não é lisonja. Se sois de Cristo, Ele vos dará todos os vossos títulos de honra; falará muito bem de vós, tanto em vossa ausência como em vossa presença. Ela é chamada de Pomba de Cristo.
Primeiro, porque a pomba é uma ave medrosa e facilmente assustada (Oséias 11:11: “Eles tremerão como a pomba ao sair da Assíria”). Qualquer coisa, o menor ruído ou som, assusta e leva essas aves tímidas ao seu pombal em Cristo. É uma feliz tempestade que leva as pombas de Cristo para dentro d’Ele; pois, por toda a astúcia do diabo, elas logo se refugiam. A tormenta que se levanta contra o navio onde Cristo e seus discípulos estão, os faz despertar e orar.
Segundo, a pomba é uma ave chorosa; assim também são as pombas de Cristo, chorando e em lágrimas (Ezequiel 7:16: “Os que escaparem dentre eles serão como pombas dos montes; como pombas dos vales, todos gemendo, cada um por causa da sua iniquidade”). Se sois pombas de Deus, tereis muitos dias de tristeza no mundo. Há guerras sangrentas entre a Igreja e o mundo; afastai a pomba do ninho e ela chora do lado de fora; afastai a Igreja de Cristo e ela se quebrará em dor.
Terceiro, ela não é uma ave vingativa; não possui outra arma contra corvos e abutres senão suas asas para fugir. A melhor armadura dos filhos de Deus, quando são injustiçados, é pela fé na oração elevar-se até Deus. Eles devem ser como Cristo. Ele saiu do mundo com muitas injustiças, e ainda não foram vingadas; seu sangue está reservado para o último dia de julgamento. Cristo permanece com muitas injustiças no céu; não recebeu reparação daqueles que cuspiram em seu rosto. Muitas vezes a Igreja e seu Esposo Cristo serão aqui injustiçados, ainda que isso se veja entre eles. Cântico 5: ela o fecha à porta e o deixa passar a noite nos campos chuvosos.
E então, em quarto lugar, a Igreja é como uma pomba que geme sem companheiro; pois essa ave não pode ficar sem par. Se sois pombas de Deus, será desgraça quando vosso companheiro Cristo se afastar. Ela desfalece e seu coração se esvai quando Cristo se afasta.
Quinto, a pomba é uma ave inocente e inofensiva; não pode ofender. Assim é a Igreja; a esposa mansa de Cristo não se une a uma casa maliciosa.
Sexto, a pomba é uma ave frágil, fraca e delicada, e se comparada às demais aves, é considerada apenas a décima parte das aves voadoras. Certamente a Igreja de Deus em si mesma é apenas uma ave fraca e uma mulher delicada, comparada em Apocalipse 12 a uma mulher com filho recém-nascido, quase entre a vida e a morte, se não for cuidadosamente assistida. Um cristão é algo delicado; uma joia na mão de Cristo. Se Ele nos deixar cair, logo nos quebramos em pedaços. Devemos orar para que Cristo nos trate suavemente e não permita que sejamos tentados além de nossas forças. A Igreja é chamada em Miqueias 4 e 6 de uma mulher coxa que anda apenas de um lado. Assim, certamente precisamos sair do deserto apoiados em nosso Amado (Cântico 8).
Sétimo, e quanto ao número, são apenas um punhado (Isaías 1). A parte de Deus, o remanescente, é apenas o décimo, e o diabo tem todo o restante; muitas vezes Deus tem um e o diabo nove. Grande necessidade temos de nos esforçar para estar entre o décimo de Deus. “Minha pomba que habita nas fendas da rocha.” Não precisamos ir longe para buscar a exposição dessas palavras, pois Cristo é a rocha sobre a qual a Igreja está edificada (Mateus 16:28: “Sobre esta rocha edificarei a minha Igreja”, diz Cristo). E Salmos 18:2: “O Senhor é minha rocha e fortaleza.” E Deus é também o lugar secreto das escadas, onde a Igreja se esconde da tempestade. Assim Davi chama Deus de seu lugar secreto, seu esconderijo (Salmos 32:7: “Tu és para mim um lugar secreto contra a angústia, tu me preservarás”; Salmos 91).
E porque em todo este cântico devemos sempre manter a linha e a corda da alegoria do casamento, considerando a Igreja como a esposa de Cristo: a rocha é Cristo, em quem a Igreja habita pela fé, e Cristo habita em seu coração (Efésios 3:17). “Permanecei em mim, e eu em vós” (João 15:4): permanecei em mim como ramos enxertados na videira. Ora, o enxerto é colocado em um tronco cortado; Cristo foi ferido, talhado e cortado na cruz, o tronco no qual somos enxertados. Assim, as fendas da rocha podem bem ser interpretadas (como diz Bernardo) como as feridas de Cristo.
O sentido é: “Ó minha pomba, que pela fé tens tua morada nas feridas e nos buracos feitos nas mãos e no lado de Jesus crucificado.” Ou: “Ó minha pomba, que crês e pela fé tens tua morada nas feridas e permaneces em Cristo como um enxerto colocado em uma árvore, em Cristo morto.” Assim o homem foge para Cristo, todo ferido e traspassado por teu pecado, foge para Cristo, tua rocha, e assim para Deus (Salmos 18:2).
Daí vemos em que Salvador a Igreja crê: um Salvador que é Deus e homem; como homem, para sofrer; e como Deus, para sustentar. Havia grande necessidade dessas duas naturezas. Deus não exigiria pagamento de nossa dívida de seu Filho como Deus; pela lei Ele não poderia responder, pois era o credor e não poderia ser o devedor. Portanto, para melhor compreender isso, quero que considere comigo como nossa natureza e a natureza de Deus operam juntas na obra da redenção. Um pecador não pode habitar em Cristo apenas como Deus. Não há fendas nem câmaras para um pecador habitar em Deus; por isso Cristo precisou ser homem, para que encontrássemos câmaras justas nas feridas de Jesus, onde as pombas de Jesus pudessem habitar. E se Ele fosse apenas homem, não poderia ser uma casa sobre a rocha, e assim não poderia suportar o peso de todas as pombas. Pois há algumas questões na obra da redenção que apenas o homem pode responder. O homem pecou, e o homem deve morrer, diz a justiça de Deus. “Que seja assim”, diz Cristo. O homem pecou, e eu, o homem Cristo, morrerei. (2) O homem assumiu a dívida, portanto outro não pode pagar por ele. “Que seja assim”, diz Cristo, “eu, o homem, pagarei o resgate.” (3) O homem precisava reparar, porque o homem cometeu a falta. “Que seja assim”, diz Cristo, “eu, o homem Cristo, repararei novamente.”
Em segundo lugar, se Cristo não tivesse sido nossa Rocha, não haveria morada nele; ele não teria protegido-nos do vento e da tempestade. Portanto, a natureza divina foi um pilar no qual a natureza humana se apoiou, e esta é a razão pela qual Cristo homem se inclina à natureza divina como seu fiador em tudo o que faz. Pois, se considerarmos esta obra, há três pactos, ou alianças, por assim dizer.
Primeiro, Deus e o homem pactuaram juntos: “Tu crerás, essa é a tua parte. Eu te darei a vida eterna, essa é a minha parte”, diz Deus. Ora, o homem não ousa prometer isso de si mesmo sem o vínculo de Cristo para socorrê-lo, isto é, capacitá-lo pela graça a crer.
Segundo, Deus pactua com seu Filho (Isaías 53:10): “Filho, se entregares tua vida, verás tua descendência, prolongarás teus dias e terás muitos filhos formosos.” (Salmos 2: “Receberás as nações como herança.” Hebreus 1: “Eu serei teu Pai, e tu serás meu Filho.”) Cristo consente, mas não pode fazer isso sozinho; deve tomar carne e sangue do homem e, neles, sofrer.
Terceiro, o homem Cristo pactua com a natureza divina. A natureza humana diz: “Eu amo o homem e morrerei por ele.” A natureza divina responde: “Agora eu te sustentarei em teus sofrimentos, e tu vencerás a morte.” O homem Cristo, sem esse fiador, não ousaria, por dez mil mundos, enfrentar a justiça de Deus, a morte, o inferno, o pecado e o diabo, se não tivesse a natureza divina em união pessoal para sustentá-lo em seus sofrimentos. Por isso Cristo, ao olhar para seus sofrimentos, olha também para seu fiador (Isaías 50:6): “Ofereci minhas costas aos que me feriam, e minhas faces aos que arrancavam a barba.” Estas são palavras do homem Cristo.
E porque poderia ser dito que um homem sofreria tudo sozinho, aqui ele olha para seu fiador (verso 7) e diz: “Tenho meu fiador comigo, o Senhor Deus me ajudará, não serei confundido. Tenho o fiador de Deus, que está unido a mim em união pessoal para me sustentar.” Assim também Cristo desce ao túmulo (Salmos 16:10): “Não deixarás minha alma no inferno (ou no túmulo), nem permitirás que teu Santo veja corrupção.” Como se Cristo dissesse: “Estou certo, Senhor, de que serás fiel à tua palavra, cumprirás teu pacto e me garantirás contra a morte.”
Vede então como acontece: o homem Cristo toma o homem pela mão para tirá-lo da ira de Deus. Amados, alegrai-vos em tal Salvador, entrai todos na Rocha, pois Deus, Cristo e o homem, todos estes três estão ligados como em uma corrente, e Cristo é o elo do meio da corrente. Agora, que todos os reis da terra que se vangloriam de belas casas e palácios majestosos venham ver se podem comparar com a pomba que habita nas fendas da Rocha. Nabucodonosor disse: “Não é esta a grande Babilônia que eu edifiquei?” Certamente os homens devem ser repreendidos por se preocuparem com casas e estabilidade no mundo, sem terem certeza desta morada. Os mundanos são apenas corvos que constroem nos montes selvagens. A Igreja está em casa apenas edificando pela fé. Estas são, de fato, câmaras preciosas, construídas pelo próprio Cristo. Deus fez fendas e janelas em Cristo para que suas pombas possam fugir para dentro e fazer seu ninho em seu coração. Ó morada querida e preciosa; o alojamento não nos custou nada, e ainda assim somos convidados a habitar nele.
E qual é a petição de Cristo? “Faz-me ouvir tua voz.” É comum ao homem pedir a Deus, pois somos apenas seus mendigos; mas é um milagre ver Deus pedir ao homem. Aqui o oleiro suplica ao barro; o Salvador busca dos pecadores. Qual é seu pedido? Deve ser algo grande; é apenas a visão de sua noiva. Ele está dizendo a ela: “Minha querida esposa, sê bondosa comigo, deixa-me ver teu rosto, não sejas tímida e vacilante, sê franca comigo, teu marido, conta-me todo teu coração em oração. Eu me deleito em ouvir teu balbucio e tua fala comigo em oração.” Vedes que todo o cortejo vem do lado de Cristo; ela não pode levantar o rosto ou lançar um olhar de amor a Cristo senão como Ele ordena e a desperta. Ela é uma noiva fria por si mesma; se ri, é Ele quem a faz alegrar-se pelo Espírito Santo que lhe é dado (Romanos 5:5). Ela permanece em seu quarto e se envergonha de sair; Ele insiste que seja bondosa e mostre seu rosto. Não podemos amá-lo sem que Ele primeiro nos ame (1 João 4:19). Corremos porque Ele nos atrai (Cântico 1:4; João 6:44). Apreendemos Cristo, mas primeiro somos apreendidos por Ele (Filipenses 3:12). Amados, há grande arte em cortejar Cristo; nem toda noiva sabe o caminho disso, mas Ele deve nos ensinar.
Em todos os outros casamentos encontrareis duas coisas que não estão aqui.
Primeiro, em outros casamentos a noiva faz algum cortejo de sua própria maneira; mas aqui os homens não podem mover-se senão quando o Espírito de Cristo corteja em nós e nos ensina. Em outros contratos a noiva e seus amigos são obrigados por sua parte, a noiva tem algum dote próprio, ou pode ser herdeira, pode ter tudo e ele nada; mas aqui o noivo neste contrato é obrigado por tudo, ele dá seu nome por si mesmo e por sua esposa (Ezequiel 36:27: “Porei meu Espírito em vós e vos farei andar nos meus estatutos”). Aqui a Igreja não tem dote próprio, e ainda assim não tem a boa educação de olhar para seu Senhor senão como ele ordena e levanta sua cabeça. Todo o dote é de Cristo, e a herança é de Cristo; a Igreja nada tem, ele possui as casas (João 14), ele possui a terra (Romanos 8), o ouro fino (Apocalipse 3), e compra as vestes nupciais da religião que veio com seu Salvador Cristo, e essa é a melhor religião do mundo, pois dá mais a Deus e menos ao homem.
Direi quem é adequado para Cristo: justamente aqueles que estão fora de si mesmos e colocam tudo sobre Cristo. Os melhores discípulos que Cristo recebe são publicanos e pecadores, prostitutas, meretrizes, cegos, coxos, aleijados e semelhantes, e aqueles que se sentem pecadores. Veja quanto confiais em vós mesmos, descansais no mundo e amais vossos desejos; tanto estais longe de Cristo. E quando estais totalmente fora de vós mesmos e transformados na imagem de Deus de glória em glória, como pelo Espírito do Senhor (2 Coríntios 3:18), então estais prontos para Cristo. Pobres pecadores mendicantes são os discípulos de nosso Senhor.
O umbral da porta da escola de nosso Senhor é uma pedra baixa; deveis abaixar-vos e inclinar-vos. Estareis de joelhos ou não conseguireis entrar; deveis ser muito humildes, senão essa pedra vos atingirá a cabeça e vos lançará para trás, e não entrareis. Então sede tolos para que Cristo seja vossa sabedoria (1 Coríntios 1:30). Há tanto mérito em Cristo que compraria mil céus. Agora, se nosso cortejador Cristo não fosse bondoso e buscasse nossa bondade, até mesmo palavras de nós, e trouxesse os sinais de amor, a amizade entre Cristo e nós logo se extinguiria e esfriaria; Cristo sempre sopra nas brasas antes que se apaguem. Cristo quer conquistar um amigo, até mesmo um inimigo, para ser bondoso com ele; ele sempre insiste e reivindica bondade de nós, como se fosse o mendigo e o pobre, e nós o rei. Oh, ele reivindica bondade de nós.
Então certamente não precisamos nos envergonhar de nosso amigo. Quereis saber por quem Cristo morreu e pagou? Justamente por devedores falidos, tais que juraram estar sem nada e saíram da prisão mediante fiança ou cessão de bens. Pobres homens que estiveram sobre a pedra da falência e estão longe de pagamento pela conta do falido; quando não há um dedo em toda vossa mão preso a vós mesmos, então estais prontos para Cristo. Pois quem melhor se encontra e se une do que um pobre homem doente e moribundo e um médico habilidoso? Quem melhor se une do que um pecador mendicante e um Cristo rico? Mas oh, muitas vezes não é assim! Pois Cristo quer nos dar mais do que queremos receber. Ele espalha seu ouro, nós, orgulhosos mendigos, não nos curvamos para recolher. Ele quer vender, nós não queremos comprar, então não haverá negócio.
]
“Deixa-me ver teu rosto.” Uma alusão a Israel, que devia apresentar-se diante do Senhor três vezes por ano no tabernáculo. O significado é: anda diante de mim. Não basta que creias e assim habites pela fé nas fendas da rocha; mas deves também mostrar tua fé por boas obras, orações e adoração a Deus. Cristo não ama professores que nunca oram ou amam orar, e tais que não odeiam o mundo; mas vereis que são crentes por sua vida santa (Mateus 13: a Palavra de Deus é semente semeada que produz trinta, sessenta e cem vezes). Cada medida produz trinta; cada sermão, cada ceia deveria produzir cem boas obras.
Amados, a terra de Deus é arrendada a alto preço; ele é um Senhor que quer todo o seu de seus arrendatários. E como diz o cântico, cada uma das ovelhas de Deus dá gêmeos (Hebreus 6:7-8). Há um solo que bebe a chuva do céu e ainda produz espinhos e abrolhos; está perto da maldição. Produzi fruto, ou fareis Deus dizer: “Minha maldição esteja sobre teu coração; ouves muito e não produzes fruto.” Portanto, cuidado, amados: uma árvore que uma vez recebe um golpe com o machado de Deus nunca mais prosperará. Tornar-vos-eis como o cinto (Jeremias 13:7) que ele escondeu junto ao rio Eufrates; não servia para nada, estava estragado, nunca mais cingirá a cintura de Deus.
Cuidado então para não serdes professores murchos e cristãos infrutíferos; mas estai sempre diante de sua vista. Pois há alguns que nunca vêm à presença de Deus; são devedores de Deus. Devem tanto que não ousam vir a Deus e prestar contas. São proscritos e fronteiriços que não vêm nem guardam o reino de Cristo; mas correm como jumentos selvagens e dromedários pelos montes, aspirando o vento ao seu prazer. Comparo sua vida àqueles que correm a galope. Muitos cavalos tem Satanás em seu estábulo; e quando esses proscritos se cansam de sua cobiça pelo pecado e obtêm não sabem o quê, montam em um cavalo novo: alguns sobre o orgulho, e correm uma vez fora da vista de Deus, correm até estarem no inferno no fim. Pois o diabo está sobre o cavalo e o cavaleiro.
Deus exige caro, e por seu dinheiro deveis dar-lhe mais que dez em cem; por cinco talentos, ele deve receber dez de volta, deve ter o dobro. Olhai que graça recebestes por peso, devolvei-lhe seu próprio peso e mais. Se seu ouro faltar uma onça, ele o lançará de volta a vós. Por uma medida semeada, deveis dar-lhe trinta de volta. Deus quer que seus servos estejam sempre em sua câmara; se vão longe dele, ele sente falta. Não deveis ser pajens da câmara de Deus e furtar-vos de sua presença, dando ao diabo um jugo de bagagem; não, ele deve sempre ver vosso rosto e ouvir vossa voz.
Há muitos que querem servir a Deus e estar na escola de Cristo; mas são como alunos faltosos que fogem para brincar, às vezes com o mundo e o diabo, e gostam de se divertir com o mundo e o diabo. Mas os discípulos de Deus não podem faltar. “Deixa me ver teu rosto.” A Igreja poderia ter dito: “Querido Senhor, meu rosto? Oh, desejas ver meu rosto? É muito negro, estou queimada pelo sol, o pecado me deformou; e quanto à minha voz, é áspera e desafinada.” O que então diz Cristo? “Não penso assim, minha querida esposa; penso que é um rosto belo; penso que tens uma voz doce.”
É grande consolo para os filhos de Deus quando se levantam muitas vezes de joelhos da oração com o coração aflito, pensando que, por não terem coração, nem sentimento, nem senso, Deus está ofendido com suas orações e pouco considera suas obras; quando, na verdade, suas orações, lágrimas e obras são aceitas diante de Deus. Vós pensais pouco de uma lágrima, mas Deus a põe em seu odre; e pouco de um suspiro, mas Deus o recolhe em seu tesouro. Se Deus pensasse de nós como o mundo pensa, e como pensamos de nós mesmos, muitas vezes seria miserável nossa situação. Mas Deus não tem visão mais agradável no mundo do que o rosto de um filho de Deus; nenhuma música o deleita mais do que os suspiros e lágrimas, queixas e orações de seus filhos.
Vede o Espírito de Deus trazendo Cristo desejoso de ver sua esposa, desejoso de ouvir uma palavra dela (Provérbios 8:31). Cristo se alegra, brinca e se deleita nas partes habitáveis da terra, e seu prazer está com os filhos dos homens. Vereis mais disso nas últimas palavras deste cântico.
“Apanhai-nos as raposas.” É uma fala de Cristo para a Igreja, para tomar, convencer, censurar, repreender, cortar e excomungar todos os que vivem desordenadamente e os ofensores na vinha do Senhor (Ezequiel 13:4: “Ó Israel, teus profetas são como raposas nos desertos.” Jeremias 12:10: “Muitos pastores corromperam minha vinha”).
Ó, o que pode haver sobre a terra para tornar uma Igreja feliz, senão isto: ouvir uma Igreja enferma de amor por Cristo, e aqui Cristo enfermo de amor por sua Igreja. A mão esquerda de Cristo está debaixo da cabeça dela, e sua mão direita a abraça. Ela é sua Formosa, sua Amada, sua Pomba, sua Imaculada. Ela habita nas feridas de seu Senhor pela fé. Contudo, apesar de tudo isso, sua Igreja é uma vinha que tem muitas raposas para destruir as videiras.
Então vemos: enquanto Deus tiver uma vinha, haverá raposas nela para destruir as videiras; isto é, homens astutos, falsos mestres, obreiros enganadores, transformando-se em apóstolos de Cristo (2 Coríntios 11:13). Paulo plantou uma igreja em Éfeso (Atos 20:28), e após sua partida lobos cruéis entraram, não poupando o rebanho. Certamente nesta vida os limites não estão bem definidos entre Deus e o diabo; o diabo invade os limites de Deus. Mateus 13: Deus semeia seu trigo, e o diabo sobe pelo campo e semeia seu joio.
Em 1 Reis 22, na corte de Acabe, nunca há um homem honesto até que seja provado: o falso e a verdade são vizinhos de porta. Há um homem honesto que diz a verdade ao rei, mas há quatrocentos falsos que dizem contra ele, e o pobre homem deve ir para a prisão, enquanto eles têm permissão de permanecer na corte. O ladrão é sempre o honesto até ser provado. Isaías se queixa (cap. 56) de cães mudos que nunca se fartam. Jeremias 10 se queixa de muitos pastores que corromperam a vinha. Ezequiel se queixa das raposas. Zacarias 11 dos pastores idólatras. Himeneu e Fileto falaram contra Paulo. Os saduceus nos dias de Cristo negaram a ressurreição.
E não apenas há falsos mestres em nossos dias, mas nas melhores igrejas houve e há muitas raposas; pois nem tudo que entra na rede é peixe. E se sois ovelhas de Deus, não deveis pensar que faltará raposas para roer e trabalhar por baixo da terra para vos destruir. Não espereis que Cristo seja Senhor dos campos sem sangue. Não estareis por muito tempo em prosperidade no mundo.
Cristo recebeu muitas pancadas de Deus e dos homens quando cortejou sua Igreja. Ele foi a videira, Deus e homem golpearam-no com machados; comprou-a caro, custou lhe sangue antes de tê-la. E pensais que ela tem bom tempo quando o corteja? Não, muitas pancadas recebe do mundo; esta raposa e aquela raposa lhe arrancam a pele. O diabo gostaria muito que o contrato fosse cancelado e o casamento desfeito.
Mas vede: Cristo obteve cartas de captura contra todas as suas raposas. Há uma comissão obtida no tribunal de Cristo, para que todos os que prejudicam sua vinha sejam presos e mantidos firmes. Consolo para vós, que sois as vinhas do Senhor e sois perturbados pelas raposas: asseguro-vos que a Igreja tem lei contra todos os seus inimigos. Não vos desanimeis porque o mundo vos odeia; há mais de dois mil e seiscentos anos Cristo deu um decreto contra todos os seus inimigos e os vossos, para apanhá-los.
“Meu Amado é meu.” Estas são as palavras do contrato de casamento. Há um pacto entre Cristo e sua Igreja (Ezequiel 36: “Eu serei o seu Deus, e eles serão meu povo”). Cristo, tendo duas naturezas, tem duas considerações contrárias, e ainda assim é uma parte, e nós outra, e promete-nos a vida eterna; e nós prometemos, por sua graça, crer.
Cristo é nosso Mediador e Fiador. Ele é nosso, e nós somos dele. Ele é nosso marido, e nós sua esposa; ele é nossa cabeça, e nós seu corpo; ele é nosso rei, e nós seu povo; ele é nosso rico fiador, e nós seus devedores.
Assim, quando ela diz: “Ele é meu, e eu sou dele; Cristo é meu, e eu sou dele, e tudo dele é meu: sua carne, seu sangue, sua morte e méritos, sua glória, seu reino, sua corte e crédito, tudo é meu; e tudo meu é dele: minha alma e corpo, meus pecados, meu sofrimento, minha cruz, tudo é dele.” Cristo e ela estão entrelaçados (João 15: “Permanecei em mim, e eu em vós”). Maldito seja quem não disser amém a isso. João 17:21: “Que eles também sejam um, como tu, Pai, estás em mim, e eu em ti, que eles também sejam um em nós: eu neles, e eles em mim.”
Estas são as coisas comuns entre Cristo e nós.
Primeiro, há uma afinidade de natureza entre Cristo e nós. Há penhores dados e recebidos de ambos os lados; ele tem um penhor nosso, nossa carne, e levou esse penhor consigo para o céu, e nunca pretende devolvê-lo; mas nós temos tão bom penhor dele, seu Espírito. Nós éramos dessa carne e sangue (Hebreus 2:14). Guardemos o penhor de Cristo enquanto ele guarda o nosso; que ele não esteja adiantado em relação a nós. Agora ele guarda nosso penhor para sempre; nunca deixará nossa carne. Nós nunca pretendemos perder o penhor, que ele o guarde para sempre; por muito tempo que o guarde. Guardemos seu Espírito; pois não é sua vontade perder esse penhor; que ele o guarde para sempre (Hebreus 4:2). Cristo quis também ser criança e participante de carne e sangue. Oxalá todos vós vos esforçásseis para obter seu penhor e guardá-lo bem; buscai seu Espírito e guardai-o bem. Homens mundanos, tendes pouca reivindicação a Jesus; Deus vos ajude, não há empréstimo nem penhor entre vós e Cristo.
Em segundo lugar, comunidade; recebemos todo o bem dele, e ele recebe todo o nosso mal, isso é uma boa troca para nós. Ele tomou nossas maldições, nós tomamos suas bênçãos; ele nossa vergonha, nós sua glória; ele nossos pecados, nós sua justiça. Ele é da Igreja, e a Igreja é de Cristo. No dia em que Deus colocou sobre Cristo, ele nos livrou debaixo da ira de Deus, e Deus feriu a cabeça da Igreja para deixar os membros livres. Quando Cristo estava negociando para comprar sua Igreja, ele conhecia as falhas nas mercadorias; sabia bem que a maldição de Deus, a ira de Deus, o inferno, o pecado e muitos males seguiam a Igreja. Ainda assim Cristo não se arrependeu a tempo; disse livremente: “Eu a tomarei, e todos os males que a seguem, ainda que seja cega, manca, sim, uma noiva amaldiçoada; ainda assim a farei minha esposa.” Oxalá pudéssemos tomar Cristo e todas as falhas que o seguem. Há homens que não querem trocar com Cristo, mas querem manter sua vontade, seus desejos. Deus estava prestes a nos ferir, e havia levantado (por assim dizer) sua vara para trazer um golpe de sua ira sobre nós; e Cristo veio, segurou sua mão, e se entregou, e pediu a seu Pai que colocasse sobre ele. Nunca se viu tal pretendente como Cristo; ele nos pede para trocar para melhor; clama a vós: “Por amor de Deus, dai-me vossa escória, e recebereis meu ouro; dai-me vossos pecados, e eu vos darei minha justiça.” Não é um assunto difícil? Os homens não querem dar seu mal a Cristo, nem transferir seus pecados a Cristo. Ele vos diz: “Dai-me vossos desejos para que eu os crucifique, e eu vos darei amor em troca; dai-me vossa ira, e eu vos darei meu zelo.” Então fazei a troca e tomai-o em sua palavra; cada dia fazei novos negócios com Cristo; negai vossa loucura e dai-a a ele para crucificar; e buscai sua sabedoria. Deveis fazer isso sempre até que toda a natureza se vá e se acabe, e nada em vós haja senão graça.
Em terceiro lugar, há uma comunidade de dons e graças entre Cristo e nós. Nenhuma graça recebemos de Deus senão que vem pelas mãos de Cristo a nós; assim Cristo guarda os penhores entre Deus e nós. Deus dá graça à sua Igreja, mas onde está? Está em Jesus. A graça está depositada nas mãos de Jesus, e foi feita uma fonte transbordante. Pois, como vemos em uma corrida, o prêmio ou a coroa não está na mão dos corredores, mas alguns amigos guardam as apostas por ambos; assim Cristo guarda o prêmio para o Pai e para nós. Cristo, de fato, é a fonte (João 1:14: “Vimos sua glória, como a glória do unigênito do Pai”). Algum amigo guarda as apostas por ambos; ali está o poço transbordando. Mas para que fim? Verso 16: “Da sua plenitude todos nós recebemos, e graça sobre graça.” Assim Deus nos dá a vida eterna. Mas quem tem essa vida em penhor? Jesus Cristo (1 João 5:11: “E este é o testemunho: que Deus nos deu a vida eterna; e esta vida está em seu Filho”). Senhor, envia-nos parte dessa graça consignada.
Novamente, não enviais um suspiro a Deus sem que primeiro seja depositado na mão daquele que guarda os penhores (Apocalipse 8:3). Pelo caminho, darei o uso com cada artigo da doutrina: examinai vossa luz, vossa graça, vossa honra e crédito, riquezas e todas as bênçãos que tendes; a prata e o ouro, se essas bênçãos estão depositadas na mão de Cristo ou se as recebeis; se não as recebeis em Cristo, são bênçãos não cristianizadas, e lhes falta a forma. Ai das bênçãos que nunca passaram pelas santas mãos de Cristo. Novamente, examinai vossas orações, suspiros e desejos, e vosso serviço, se os ofereceis a Deus em Cristo. Muitas orações não cristianizadas vão ao céu e nunca são bem recebidas por Deus. Deveis tomar vossa comunhão da mão de Deus de perto; mas da mão de Cristo não deve haver nada feito entre Deus e nós sem que Cristo esteja nisso.
Quarto, há uma comunidade de sofrimentos entre Cristo e nós. Seríamos pobres se seus sofrimentos não fossem nossos; e desgraçada seria nossa situação se seus sofrimentos não fossem nossos. Mas assim acontece: ele é aquela macieira excelente acima de todas as árvores da floresta, e nós descansamos debaixo da árvore; agora, quando a chuva cai, primeiro atinge a árvore, e o golpe é quebrado, e não causa grande dano aos que estão debaixo dela. Cada novo ataque contra a Igreja cai primeiro sobre a cabeça de Cristo, e ele quebra a ponta da flecha. Se sois mal falados, assim foi ele; se sois odiados pelo mundo, assim foi ele; se vosso sangue é derramado e vosso rosto deformado, assim foi o seu belo rosto deformado e desfigurado (Isaías 52:14). Contentai-vos em beber com Cristo. Ai daqueles que não estão em Cristo e ainda estão em tribulação: a flecha com a ponta afiada vem sobre eles, vai ao coração e os mata. Examinai se vossas tribulações são tribulações cristianizadas, que primeiro recaem sobre Cristo, a cabeça, e depois sobre vós como membros. Examinai se pela fé tendes união com ele.
Aqui, de passagem, um grande consolo na tribulação: aqueles que vos são queridos morrem, e vós chorais; Cristo chorou e gemeu em espírito por Lázaro morto. Vós chorais, assim ele chorou. Sois pobres e sempre a pedir emprestado; assim foi Cristo, sempre no comércio do empréstimo em todos os seus dias. Não deveríeis então, de boa vontade, beber do cálice que ele bebeu antes de vós? Quando murmurais e não quereis beber de boa vontade, recusais brindar a Cristo; mas deveis brindar a ele e beber com a bênção de Deus e com alegria; ele não vos envenenará. Não são amigos de Cristo aqueles que não querem brindar com ele (Mateus 20:22).
Quinto, há uma comunidade de glória entre Cristo e nós: o céu que o Mediador Cristo desfruta é nosso céu; nosso céu é para o homem Cristo uma conquista. O céu foi comprado com sangue para ele e para nós, e para vos fazer regozijar: nenhum dos filhos de Deus recebe um céu propriamente seu; por quê? Recebemos uma parte da herança de Cristo; ele é o herdeiro principal (Romanos 8), nós somos co-herdeiros. Doce é aquela palavra que ele fala a seus filhos (Lucas 22:29-30): “E eu vos destino um reino, como meu Pai me destinou, para que comais e bebais à minha mesa no meu reino, e vos assenteis em tronos, julgando as doze tribos de Israel.” O significado é: meu Pai me fez a disposição do reino de Deus, é meu e de meus queridos filhos. Eu consideraria o céu estranho se vós não estivésseis comigo. Aqui faço a disposição e entrega desse reino a vós; sentareis à minha mesa em meu reino. Animai-vos, ainda que não sejais senhores na terra, sereis senhores no céu; eu e vós repartiremos reinos e tronos juntos.
E eu sou dele. Esta propriedade do pacto é mútua, como ela diz e reconhece que ele é dela, e assim Cristo está ligado a ela por sua promessa; assim ela reconhece que está ligada a ele, e é dele por direito. Multidões no mundo querem brincar de prender e soltar com ele: querem ter Cristo preso e a si mesmos soltos. Inventam um pacto próprio e dizem: Cristo morreu por todos, e Deus é misericordioso para todos, e Deus livrará todas as almas cristãs do inferno, e pensam que Deus e Cristo estão suficientemente ligados a eles; mas, ao mesmo tempo, estão soltos e vivem como cães e porcos em sua imundícia.
Esses homens querem ter Cristo como uma criança ao fazer o pacto, e extremamente tolo: Cristo dar-se-ia por vós, e vós não dareis nem vida nem bens por ele? Cristo veio para vos salvar (Mateus 20:28), e vós sereis seu mestre? Não sois obrigados a servi-lo? Isto é fazer um evangelho próprio. Muitos obedecem ao evangelho enquanto ele os lisonjeia. Enquanto lhes diz as partes de Cristo, que ele derramou seu sangue e veio salvar pecadores gratuitamente: esse é o melhor capítulo de toda a Bíblia. Mas quando o evangelho começa a lhes dizer qual é sua parte, que devem negar a si mesmos, crucificar seus desejos, tomar a pesada cruz de Cristo, eles recuam. São cristãos de pés sensíveis que andam na lei e no evangelho enquanto caminham suavemente sobre ele como um leito de rosas, sem ferir seus pés; mas quando um espinho do mandamento os toca, recuam.
Não podeis tomar metade da lei de Deus e escolher apenas o que vos serve. Assim como Cristo se deu para ser vosso e subscreveu o contrato, dai-vos a ele e subscrevei vossa parte do contrato para ser dele, como ele é vosso; tomai, portanto, a lei e este doce Salvador juntos, ligai-vos a ele para ser dele, como ele está ligado a ser vosso.
Ele alimenta entre os lírios. Para provar que Cristo a estima como sua Igreja e rebanho, sua esposa, sua amada: ela diz que ele a alimenta entre os lírios, isto é, a pura e incorrupta Palavra de Deus, ou os lírios são os frutos do Espírito, em oposição às raízes fétidas e amargas que crescem na Igreja, quando o juízo é como cicuta ou absinto; ou os lírios, os santos de Deus, que são lírios entre espinhos.
Em quinto lugar, seja como for, é certo que o Senhor alimenta sua Igreja com tanto alimento espiritual quanto mantém sua vida no caminho para o céu, até que venha o dia do casamento (Romanos 8:23). Recebemos aqui as primícias. Quando um homem ceifa um feixe de seu campo de trigo, isso lhe dá a certeza de toda a colheita. Deus quis que Israel provasse das uvas de Canaã, para assegurar-lhes que receberiam a terra em si (2 Crônicas 1:22). Deus nos selou e nos deu o penhor de seu Espírito em nossos corações.
Há duas palavras: primeiro, Deus faz com seus filhos nesta vida como um comerciante faz com suas mercadorias compradas; porque não pode transportá-las imediatamente, ele põe um selo ou marca sobre elas, e então não podem ser vendidas a outro. Seus filhos apertam as mãos, ele escreve seu nome e suas armas, a imagem de Deus em sua alma; e então, quando o diabo vem pelo mercado para comprar, oferecendo sempre dinheiro à vista, prazeres, desejos, honras, tendes uma resposta a dar-lhe: dizei-lhe que vossa alma já está selada; já negociais com um comerciante honesto; Cristo e ele puseram sua marca sobre vós para que não sejais vendidos; e seria uma pena enganá-lo. Portanto, mandai esse enganador procurar seu mercado em outro lugar; não sois seu comerciante. O diabo promete tão bem quanto Deus; não regateia com eles; não se importa em prometer muito mais do que o céu: “Sereis como Deus.” Mas não paga tão bem quanto Deus. Não concordeis com ele, não negocieis com ele.
Há outra palavra doce usada: que Deus dá a seus filhos o penhor de seu Espírito nesta vida; ele lhes dá sinal, fé, esperança, alegria, isso é como seis ou sete xelins para garantir que recebereis o principal. Amados, se Deus negociou convosco e vos deu sinal, é porque quer que o contrato permaneça. Não aceitareis então o sinal de Deus e negociareis com o diabo? Pelo sinal de Deus tendes a certeza disto: Deus virá e resgatará seu sinal; nunca ninguém teve motivo para se arrepender de negociar com Jesus Cristo.
Outra palavra usada (João 16): Cristo está indo para o céu para deixar seus discípulos; prometeu voltar a vê-los. Como ficaram tristes por não tê-lo, e alegres por aquela palavra de que voltaria. Portanto, em sinal e prova de que voltaria, prometeu-lhes um penhor, que era seu Espírito Santo. Sabeis que Cristo e nós estamos contratados nesta vida; seremos casados novamente no dia em que vier julgar o mundo. Agora, durante todo o tempo de cortejo, há sinais de amor entre eles e cartas enviadas. Dizei-me quando recebestes uma carta de Cristo pela última vez; haverá mensageiros indo entre vós. A mesma Palavra é um mensageiro, os sacramentos são sinais de amor que nosso cortejador deixou para assegurar-nos que está contratado conosco.
Enquanto o dia amanhece. Isto é, o dia do casamento; em hebraico chamado “vosso dia” por excelência. É chamado o dia de Cristo, o dia da redenção (2 Timóteo 1:12). É o dia em que Cristo está perfeito em seus membros. Agora o corpo de Cristo está mutilado, braços, pernas e mãos em diversos lugares; alguns não nasceram, alguns nasceram, mas estão no serviço do diabo, alguns apodrecidos na terra, outros lançados no mar. Cristo sangra em seus membros; há muitas feridas no corpo místico de Cristo hoje; tudo será reunido naquele dia.
E a sombra fugirá, ou névoa. Esta vida é apenas uma noite, por causa da ignorância e escuridão de nossa mente; vemos apenas o retrato do reino no espelho da Palavra e dos sacramentos. Então, quando aquele dia amanhecer, veremos a ele face a face. Enquanto dura a noite, nada fazemos senão pelo uso da vela; quando o sol nasce, a vela é apagada. O evangelho é a vela de Deus para nos mostrar o caminho para o céu; mas quando for dia claro, e Cristo nos iluminar do céu, então virão luz e calor dele, luz clara e conhecimento que durarão para sempre.
Aqui recebemos apenas as aparas do pão de Deus, e uma bebida leve, por assim dizer. Lá a mesa estará coberta, e o grande pão posto sobre ela, e todos comerão, e todos serão bem-vindos, e a mesa nunca será retirada. Tereis vossa plenitude de Cristo; bebereis e bebereis na fonte, o cálice da salvação para sempre.
Em segundo lugar, uma noite aqui: mas não sabemos o que somos, os limites não estão definidos entre Deus e Satanás aqui. Somos apenas corpos frágeis, vasos de barro, muitas vezes em problemas (1 Coríntios 1), e ainda assim filhos de reis (1 João 3:2: “Amados, agora somos filhos de Deus, e ainda não é manifesto o que havemos de ser; mas sabemos que, quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele, porque o veremos como ele é”). Um amigo de um inimigo não pode ser conhecido na noite. Não vos importe o que o mundo pensa de vós, é noite, eles não podem ver-vos bem.
Em terceiro lugar, é noite por causa das grandes tribulações que nos cercam (Lucas 3:1-2). Contentemo-nos com uma cama dura, a manhã será um bom dia, e pensai no consolo que será para vós quando Deus colocar suas santas mãos em vosso rosto e em vossos olhos cheios de lágrimas, e os enxugar com o lenço de sua consolação.
Agora, nesta curta noite, permanecei em paz e dormi pela fé em Deus. Contentai-vos em deitar-vos em vossa sepultura por uma ou duas noites; pois vosso esposo Cristo estará ao vosso lado logo pela manhã.
“Volta, meu amado, e sê como a gazela ou o filho do veado sobre os montes de Beter.” Como em Salmos 71:21: “Tu me farás voltar e me consolarás.” Volta e vem a mim, tão veloz como a gazela ou o filho do veado sobre os montes de Beter, ou Bithven. Os montes da divisão ou separação: o monte Gileade separado ou apartado do restante da terra da Judeia pelo rio Jordão. Nesses montes havia agradável habitação; aqui ela deseja sua presença, seja no juízo final, ou em sua encarnação, ou pelo consolo de seu Espírito Santo, e ora para que, assim como as gazelas e os veados não são impedidos por rochedos ou despenhadeiros para descer e encontrar-se uns com os outros, assim Cristo seja bondoso com sua amada, e considere montes como vales, e que nenhum caminho pedregoso impeça o Senhor Jesus de vir.
“Volta, meu amado, e sê como a gazela ou o filho do veado sobre os montes de Beter.” Como em Salmos 71:21: “Tu me farás voltar e me consolarás.” Volta e vem a mim, tão veloz como a gazela ou o filho do veado sobre os montes de Beter, ou Bithven. Os montes da divisão ou separação: o monte Gileade separado ou apartado do restante da terra da Judeia pelo rio Jordão. Nesses montes havia agradável habitação; aqui ela deseja sua presença, seja no juízo final, ou em sua encarnação, ou pelo consolo de seu Espírito Santo, e ora para que, assim como as gazelas e os veados não são impedidos por rochedos ou despenhadeiros para descer e encontrar-se uns com os outros, assim Cristo seja bondoso com sua amada, e considere montes como vales, e que nenhum caminho pedregoso impeça o Senhor Jesus de vir.
Oremos.

Comentários