Quando Deus se torna um problema.
- Natanael Rinan

- 3 de abr.
- 4 min de leitura
Não raramente, o crente fiel é colocado em circunstâncias nas quais o amor que tem por Deus concorre com coisas que lhe são caras e, nesse contexto, instaura-se um grande dilema no interior do crente. Aliás, antes mesmo de prosseguir, devemos nos questionar se tal dilema realmente existe no coração daquele que verdadeiramente teme ao Senhor, pois, dado que o amor a Deus é superior a toda e qualquer coisa nesta vida, é lícito e seguro que nos desprendamos de tal graça para nos apoderarmos de algo tão inferior? Seria essa uma pergunta pertinente àqueles que amam a Deus?

Tais questões estão diretamente conectadas àquele mandamento no qual o próprio Senhor Deus proíbe que coloquemos qualquer coisa, senão Ele mesmo, como primaz e princípio de nossa vida. E se, do ponto de vista teológico, afirmar isso é ortodoxo, confessemos que, na prática, somos tão heréticos quanto os papistas, pois, assim como muitos deles se apegam ao gesso ou à madeira, nós mesmos somos amantes de nós mesmos ou de alguma coisa que nos é cara. Tudo isso, certamente, no coração fiel, é abominável e condenável.
Entretanto, o dilema desse mesmo coração fundamenta-se no fato de que, uma vez reconhecida sua miséria e depravação, amando a Deus e desejando-o constantemente, quão infernais são as coisas deste mundo que prezamos a ponto de desonrar o nosso Senhor. Pois nenhum de nós, se rico e revestido de autoridade no mundo, com todas as coisas sob seus pés e possuindo as maiores riquezas, por causa de um mendigo, se disporia a tornar-se mendigo e colocar o miserável em seu lugar.
Sucede, porém, que Jesus Cristo, sendo o Filho de Deus, humilhou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, assumindo a figura humana e, sendo o Senhor digno de toda obediência, fez-se obediente até a morte. Aquele mesmo que julga todas as coisas segundo a sua santidade justíssima foi julgado pela justiça mais vil dos homens, a ponto de não apenas ser condenado, mas também exposto como espetáculo de zombaria, atração de seus inimigos e, nesse mesmo contexto, olhando para o alto, clamou ao Pai que os perdoasse, pois não sabiam o que faziam.
Essa percepção do perdão traz consigo um corolário: apenas alguém consciente de uma posição tão superior e divina poderia ser compassivo para com homens perversos em atos de profunda soberba e desprezo contra Ele mesmo. Contudo, embora possamos aplicar esse texto ao perdão que devemos conceder àqueles que nos ofendem, outro ângulo deve nos levar à reflexão, a saber, que o pior dos sofrimentos foi por Deus mesmo destinado ao seu Filho, por amor de pecadores desgraçados. E, ainda que chorando de angústia e pedindo que o cálice lhe fosse passado, o Filho de Deus não permitiu que sua vontade concorresse com o propósito do Pai; antes, insistiu, dizendo: “não seja como eu quero, mas conforme a tua vontade”.
Esse santo sentimento, certamente, nos é difícil de alcançar, pois, em meio aos conflitos de interesses, geralmente são os nossos próprios interesses pelos quais lutamos para conquistar; e quando Deus se torna um obstáculo para a obtenção desse fim, não pensamos duas vezes em transgredir o seu mandamento de amá-lo de todo o nosso coração.
A maior tolice, portanto, que podemos admitir é a de que haja espaço para uma fé real na negligência de honrar a Deus. E, se levarmos a sério essa admoestação, tornar-se-á evidente que nenhuma fé genuína é possível onde não existe a mortificação da própria vontade, isto é, o constante sofrimento de enxergar Deus como obstáculo à nossa aparente felicidade mundana e, tendo percebido isso, sermos renovados no mesmo entendimento, alegrando-nos por sermos guiados pelo Espírito Santo.
Perceba o duplo modo de percepção que temos de Deus: em um primeiro momento, pelo impulso da carne, Deus é visto como aquele que atrapalha; mas é o Espírito Santo quem, nesse mesmo instante, transforma a nossa percepção. Pois Cristo é pedra de tropeço apenas para os ímpios, enquanto, para aqueles que nele creem, é a imagem à qual devemos ser conformados.
Isso explica a fúria daqueles que não apenas negam a Deus, mas se tornam seus mais furiosos inimigos, pois Deus, para eles, é um problema, não de ordem racional, mas de realidade e de consciência (Sl 14.1). Deus se torna um problema para mentes perversas que ainda percebem a sua santidade, ainda que de forma míope. Ele continua sendo um problema para o assassino que, embora não tenha tirado a vida de ninguém, odeia o seu próximo e lhe deseja o mal. Ele ainda é um problema para jovens que, embora virgens, alimentam a mente com lascívia e luxúria desprezando a verdadeira pureza. O Senhor ainda é um grande problema para aqueles que, fazendo-se de humildes (1Tm 6.3–4), negam a verdade, omitem-na ou lhe acrescentam algo para torná-la mais aceitável. Pois somente um orgulhoso alteraria a Palavra de Deus com a intenção de “melhorá-la”. Que espécie de vício pode ser atribuída à ousadia daqueles que se julgam capazes de tal aprimoramento da Escritura?
E, entre os ditos crentes, inclusive no meio reformado, tal é a pretensiosidade desses abutres que, para fincar mais firmemente as mentiras que advogam, mascaram-nas com slogans da Reforma, textos bíblicos e certa dose de retórica, a fim de que os idiotas de nosso tempo os acompanhem. Contudo, Deus lhes permanece como um problema e, à medida que implementam a mentira, não se constrangem em tornar Deus também objeto de piada e escárnio, como se vê em larga escala nas redes sociais, sob o nome de brincadeira, piada ou stand-up gospel.
E quanto àqueles para quem, particular e individualmente, Deus se tornou um problema, talvez você, caro leitor, que, diante da verdade e de sua cabal consequência lógica, prefere ou negligenciá-la em favor de algo que lhe é caro, ou negá-la em nome de algum pretexto decorrente da influência que outros exercem sobre você (como sucedeu com Israel sob a influência de outras nações), lembre-se: o cativeiro espiritual começa quando, diante da graça de Deus, resistimos à sua obra externa por meio de um interior endurecido e petrificado. Que, porém, o poder da graça, em sua própria operação, te amoleça e te faça reconhecer quão problemático o teu Deus tem sido aos teus olhos, por causa da tua incredulidade e da tua vontade.

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