A busca cristã por uma Vida Intelectual
Ser cristão requer uma inteligência que excede a própria estrutura das capacidades do ser humano, pois, uma vez que fomos criados para a glória de Deus, sendo feitos à sua imagem e semelhança, ainda dentro de nosso estado original, a finalidade que nos fora proposta pelo Criador excedia sobremaneira as capacidades mais naturais de todo o nosso ser.
Sucede, porém, que nosso estado original se perdeu pela queda de nosso primeiro pai e, agora, não apenas somos limitados pela nossa condição de criaturas, como também fomos reduzidos a uma servidão pelo pecado, afetando o nosso intelecto e a nossa vontade.
O bem aparente substituiu o verdadeiro e legítimo Bem eterno; o sentido universal das coisas passou a fragmentar-se na mediocridade do homem corrompido e individual, e cada um, desprezando a verdade de Deus, entregou-se à injustiça e a toda sorte de mentiras.
A nossa vontade, uma vez conduzida pelo intelecto, embora livre naquilo que é natural, perdeu a capacidade de julgar e escolher os bens espirituais, condenando os homens a uma condição totalmente abjeta e abaixo do padrão em que Deus os havia colocado originalmente.
Portanto, a vida intelectual cristã pode-se dizer de dois modos: (1) aquela disposição natural do homem em conhecer e graduar-se na verdade; (2) aquela virtude divina que impulsiona os homens a compreender a verdade a partir das lentes de seu Criador. No primeiro modo, dizemos com Aristóteles que "todos os homens por natureza propendem ao saber" (Metafísica, I, 980a 21). O segundo modo, porém, dizemos com o apóstolo Paulo: "o homem natural não aceita as coisas do Espírito de Deus" (1Co 2.14).
A principal distinção entre ambas consiste nisto: embora Deus não tenha privado homem algum do interesse natural pelo conhecimento nem das faculdades racionais necessárias para investigar a realidade, permitindo-lhe ainda, apesar da corrupção do entendimento causada pela Queda, alcançar certas verdades por meio da própria natureza como mestra, somente aqueles que, pela fé, abraçam a Cristo como Senhor podem possuir a segura inteligência da verdade eterna, tendo nele o Mestre fiel e infalível, por meio de quem todas as coisas são corretamente conhecidas e julgadas.


De que tipo seriam essas verdades que se podem "alcançar [...] por meio da própria natureza como mestra"?