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Janeiro não nos salva

Todo início de ano carrega consigo um convite quase automático à reflexão. As pessoas param, ainda que brevemente, para olhar para trás, avaliar escolhas, pesar erros e sonhar com versões melhores de si mesmas. Surgem metas, promessas e resoluções bem-intencionadas: ser mais disciplinado, mais paciente, mais espiritual, mais coerente.

Mas, passados os fogos e as primeiras semanas de janeiro, algo se torna evidente: o calendário mudou, mas o coração humano permanece o mesmo.

A Terra apenas completou mais uma volta ao redor do sol. Os fogos foram semelhantes aos de outros anos, apenas em cores diferentes. E os pecados? Continuam os mesmos, cometidos ora por descuido, ora por escolha consciente, apenas em épocas diferentes do ano.

Essa constatação, longe de ser apenas pessimista, nos conduz a uma verdade fundamental da fé cristã reformada: o ser humano é incapaz, por si mesmo, de obedecer a Deus.

As resoluções de ano novo revelam mais sobre nossa fragilidade do que sobre nossa força. Elas expõem a esperança de que, com organização suficiente ou esforço renovado, conseguiremos nos tornar aquilo que deveríamos ser. No entanto, a Escritura é clara ao afirmar que o problema do homem não é falta de método, mas de natureza.

Nossa incapacidade não é circunstancial; é espiritual. Não falhamos apenas porque tentamos pouco, mas porque somos, desde a queda, inclinados ao pecado. Os mesmos erros retornam não por azar, mas porque brotam de um coração que não consegue, por si só, agradar a Deus.

Se a fé dependesse da nossa constância, da nossa disciplina moral ou da nossa força de vontade, todo novo ano seria apenas mais uma prova do nosso fracasso.

A fé verdadeira não nasce do esforço humano. Ela não é fabricada por metas bem escritas nem sustentada por entusiasmo temporário. Ela não pode vir de nós mesmos.

Se dependesse exclusivamente de nós, estaríamos perdidos a cada janeiro. Perdidos a cada dia. Perdidos para sempre.

Mas o evangelho nos lembra que a nossa esperança não está em um recomeço humano, e sim em uma iniciativa divina. O cristianismo não começa com o homem subindo em direção a Deus, mas com Deus descendo em direção ao homem.

O Filho desceu. Assumiu carne. Suportou a ira do Pai. Experimentou o abandono que era devido a nós. Onde falhamos repetidamente, Ele foi fiel até o fim. A nossa salvação não foi conquistada por uma decisão tomada na virada do ano, mas por um decreto eterno cumprido na história.

É isso que muda tudo, mesmo quando, externamente, tudo parece igual.

Somos pequenos. Frágeis. Instáveis. Areia coexistindo com um universo inteiro. Ainda assim, Deus teve o cuidado de escolher, redimir e sustentar os seus grãos.

Não somos amados por causa da nossa honra, moral ou capacidade espiritual. Somos amados apesar da ausência delas. A graça não é resposta ao nosso mérito, mas expressão da soberania de Deus.

Por isso, talvez a atitude mais honesta neste início de ano não seja prometer mais, mas depender mais. Que não seja confiar em um “novo eu”, mas descansar no Deus que não muda

.

Janeiro não nos salva. Resoluções não nos salvam. Promessas não nos salvam.

Cristo salva.

Que este novo ano não comece com autoconfiança, mas com gratidão. Não com ilusões sobre nossa força, mas com um reconhecimento humilde da graça que nos sustenta todos os dias.

Agradeça e ore por isso.

 
 
 

1 comentário


Caique Sousa
Caique Sousa
há 7 dias

Gostei!!👌

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